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Wizard - 75 gravuras


 


               O Mago

"O mago está além dos opostos da luz e das trevas, do bem e do mal, do prazer e da dor.
Tudo que o mago vê tem suas raízes no mundo invisível.
A natureza reflete o estado de alma do mago.
O corpo e a mente podem adormecer, mas o mago está sempre desperto.
O mago possui o segredo da imortalidade."

Deppak Chopra - O caminho do Mago

               "O Mago" II  (O Homem Que Não Fazia Chover) por Ademir Luiz

             A imagem mais nítida que tenho de Paulo Coelho vem de uma entrevista que, no início dos anos 90, ele concedeu a Bruna Lombardi, em seu programa Gente de Expressão. Indagado sobre quais seriam seus tão falados poderes ocultos, Paulo Coelho declarou que entre outras coisas sabia fazer chover. Para sua surpresa a entrevistadora desafiou-o a realizar o fenômeno ali mesmo, diante das câmaras. Visivelmente constrangido o “mago” desconversou, dizendo que não exibiria seus dons daquela forma. Bruna Lombardi insistiu, mas ele se manteve firme em não provar em atos o que garantia por palavras. Mudaram de assunto. Minutos depois afirmou que era capaz de ficar invisível. Desta vez Bruna apenas sorriu.

             Por estas e outras, falar mal, ridicularizar, desdenhar Paulo Coelho é fácil. O próprio fornece farta munição para seus detratores. É mesmo um personagem controvertido: um católico fervoroso que diz praticante de magia, o que até onde se sabe é condenado pela Igreja. Um cristão que se declara simpatizante do budismo, uma religião ateísta. Um escritor que se recusa a corrigir os erros ortográficos que comete, alegando que eles fazem parte do espírito da obra. Um adulto que acredita em anjos da guarda e até sustenta que já viu o braço do seu anjo particular (Xuxa viu duendes, ora!). Um milionário que vende a imagem de refinado, mas que vive como novo-rico, exibindo suas mansões na revista Caras. Um negociante implacável que hesita em lançar um novo livro em certa data porque uma suposta vidente francesa previu má sorte. Um intelectual de cultura mediana que volta e meia equivoca-se quando se aventura a discutir assuntos complexos ou nem tanto. Um ficcionista de parcos recursos que se arvora a criticar James Joyce. Um homem que, enfim, raspa a cabeça e usa rabo-de-cavalo ao mesmo tempo. 
             Mais do que um escritor entre muitos, Paulo Coelho é um tipo folclórico do confuso cenário cultural brasileiro. É a prova viva de que perseverança, bons contatos e faro para marketing pessoal são muito mais importantes do que talento e erudição na complexa fórmula que define um ficcionista bem-sucedido. Se o valor estético de sua obra é questionável, no quesito controle da carreira seus méritos são inegáveis. Na alquimia dos números de vendas, temperados por um impressionante prestígio internacional, conseguiu o grande feito de transformar chumbo em ouro. Em fardão bordado de ouro para ser mais exato. Passou de saco-de-pancada da crítica à imortal adulado. Highlander, com espada e tudo, dono da cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras. Estranhamente eleito no lugar do respeitável cientista político Hélio Jaguaribe. 
             Por tudo isto ainda mais fácil do que falar mal de Paulo Coelho é ser considerado um mero invejoso ao fazê-lo. Em nosso país de iletrados, com seu parco mercado editorial, a melhor defesa que um escritor pode apresentar em seu favor é ter feito fama e fortuna produzindo o mais intelectual dos objetos: o livro. No fundo não é um argumento dos mais convincentes. Na história da literatura raras vezes refinamento artístico e vastas tiragens foram denominadores comuns. Exceção feita aos livros totêmicos. Provavelmente os milhões de “consumidores” que adquirem os livros de Paulo Coelho são os mesmos que rechearam as paredes de Sandy e Júnior de discos de diamantes. Ou seja: cresceram, mas não amadureceram e não primam pelo bom gosto. 
             Em essência Paulo Coelho pouco difere de um Sydney Sheldon ou de um Harold Robbins. Para o grande público leitor seus deméritos são suas melhores qualidades. A diferença entre o brasileiro e os dois produtores de best-sellers norte-americanos é que enquanto eles assumem com digno orgulho a natureza escapista de suas criações, o “mago” acredita, e habilmente faz seus leitores também acreditarem, que seus fúteis livros de auto-ajuda transmitem de maneira simples mensagens profundas e complexas. Mensagens que de outro modo somente seriam acessíveis a iniciados em ciências ocultas, magia branca, alquimia etc. Com uma vantagem (ou desvantagem, dependendo do ponto de vista): ao contrário de, por exemplo, Zibia Gasparetto seus “ensinamentos transcendentes” não estão restritos ao gueto espírita, são tendencialmente universais. 
             Paulo Coelho se considera um grande escritor. Já declarou isto em diversas ocasiões. Qualquer leitor mediano percebe que não é. Sendo generoso, é de razoável para baixo. Ao mesmo tempo seu sucesso é tão duradouro e inegavelmente cristalizado que se torna quase surreal. Não foi uma moda de verão, como talvez a maioria imaginasse que se tornaria. Na posição em que está Paulo Coelho adquiriu o direito de rir na cara de qualquer pobretão (como eu) que ainda insisti em criticá-lo diante da multidão surda de seus admiradores.

Veja a continuação deste texto aqui: verbo21

1998 / 2014 Castelo da Fantasia - 17 anos
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Paulo Stoll Nogueira